Reflexão

Um causo futebolístico para pensar gestão de sala de aula na escola

Existe um "causo" bastante conhecido entre aqueles que acompanham a história do futebol brasileiro que remonta ao terceiro jogo da Copa do Mundo de 1958, contra a, hoje extinta, União Soviética.

Diz-se que Feola, então técnico da seleção brasileira, reuniu o time no intervalo e descreveu sua estratégia para o segundo tempo: Zito e Nilton Santos deveriam desarmar o ataque soviético e passar a bola para o meio-campo Didi. Este deveria lançar para Garrincha, que driblaria quem estivesse pela frente, e cruzaria para Vavá, que estaria na área para marcar o gol. Simples assim.

– Alguma pergunta? – disse o técnico, ainda entusiasmado com a própria ideia. Garrincha, que ouviu atento, abriu um sorriso malicioso e perguntou:
– Professor, o senhor já combinou isso com os russos?

O que está sintetizado na resposta desse nosso gênio das pernas tortas é a ideia de que, sim, é possível que essa jogada aconteça exatamente da maneira que foi planejada pelo técnico Feola — mas isso depende de tantos fatores que a maior probabilidade era a de não acontecer exatamente daquela forma. Exceto, é claro, se pudéssemos contar com a ajuda do time adversário.

De fato, na tática feolana os russos estão em algum lugar entre terem sido completamente subestimados enquanto grupo capaz de interferir no resultado previsto e a crença de que são parceiros incondicionais. No futebol, ambos os extremos são absurdos. Na educação, leituras "feolanas" das relações em jogo em sala de aula foram tidas como aceitáveis durante um tempo considerável.

Minha experiência aprendendo a gerir a sala de aula

Em 2007, quando comecei a atuar em escolas públicas de Porto Alegre como professor de Música, a estratégia baseada numa aprendizagem ativa e dialógica, centrada no aluno e considerando seu interesse, valorizando o conhecimento musical prévio do aluno, parecia constituir a receita infalível para romper com a educação tradicional.

Era um plano digno de um Feola, ou seja, com objetivos e estratégias coerentes e interessantes mas, no mínimo, cheio de lacunas. Um plano que desconsiderava o quão complexo é lidar com as individualidades quando se está num contexto coletivo como o da sala de aula.

Salas de aula sem crianças "se matando" parece algo natural, mas crianças não nasceram programadas para se comportar de modo "escolar". Conseguir um bom clima escolar é mais difícil do que parece.

Formar uma roda com um grupo, respeitar a fila no banco ou o colega que te provocou não são habilidades inatas. São habilidades aprendidas (muitas vezes, na escola) como tantas outras que, muitas vezes, são pré-requisitos para realizar uma determinada atividade. É, geralmente, no desenvolvimento dessas habilidades-requisito que os planos de aula "feolanos" pecam na medida em que esperam que elas já estejam construídas.

Quando se constata a ausência dessas habilidades, culpam-se as crianças, a família e até a professora-referência. Criam-se frases de efeito do tipo "a escola ensina; educação tem que vir de berço" para se eximir da "culpa".

As diversas formas de se desenvolverem habilidades de convivência e organizar o trabalho, o tempo e o espaço visando a criação de um ambiente favorável à aprendizagem no contexto coletivo da sala de aula é o que chamo de gestão de sala de aula.

Este foi meu tema de pesquisa no mestrado em Educação na PUC-RS. Construir um clima escolar favorável ao ensino e à aprendizagem é papel do professor. E, como estudos vêm mostrando, o clima escolar é um fator importante demais para a aprendizagem dos alunos para esperarmos que ele seja construído "na sorte".

Gerir a sala de aula é papel dos professores e, felizmente, diferente do Feola, esta é uma tarefa onde é possível (não fácil) combinar com os "russos" visando um bom resultado para a turma como um todo.

Este texto tem como base o artigo "Gestão de sala de aula na educação musical escolar" publicado na Revista da Associação Brasileira de Educação Musical em 2013.