Gestão de Sala de Aula
Como implementar a proibição de celulares em sua escola: 8 dicas de um professor
A lei 15.100/25 sancionada pelo presidente Lula recentemente já entra pra história como uma das poucas pautas que conseguiu unir parlamentares de direita e esquerda, (apesar de algumas discordâncias) justamente num período tão polarizado de nossa política.
Independente da sua visão política, tenho certeza que o leitor já se pegou observando a relação de jovens com celulares a ponto de se questionar o quão saudável ela é. Os especialistas não têm sido otimistas em relação aos impactos do uso de smartphones no período anterior à vida adulta.
Então, agora que a lei está em vigor as escolas estarão automaticamente livres de celulares e, enfim, as crianças serão felizes para sempre, certo? Errado!
O presidente Lula sancionou, mas quem vai implementar essa lei, amigo professor, é você! E, digo mais: não será fácil.
Por isso, esse texto traz algumas dicas de gestão de sala de aula (baseadas em minha experiência como professor e em resultados de pesquisas com professores eficientes) para ajudar alunos e professores a implementar da forma mais tranquila e acolhedora possível esta nova realidade.
1. Use um relógio de pulso
Se você ficou animado porque só o celular dos alunos foi proibido, acho melhor esquecer. Alunos proibidos de usar celular vão ter mais dificuldade de se adaptar às regras se ficarem observando o professor usá-lo com frequência.
Reflita sobre todas as funções que você usa no celular enquanto dá aula (relógio, gravador de voz, câmera, aplicativo para registrar a chamada, etc.) e tente buscar alternativas analógicas ou fazer uso dessas funções no notebook ou outro aparelho que não um celular.
Principalmente nas primeiras semanas dessa novidade, será importante para os alunos observar um adulto se mostrando capaz de manter-se calmo e assertivo, mesmo sem usar o celular como "regulador emocional" sempre que se sente ansioso.
2. Comunique para se antecipar aos problemas
Demonstrar que os professores e/ou a direção já pensaram nisso e estão preparados é um fator importante para que o aluno tenha confiança em quem está liderando o processo. As chamadas de emergência deverão ser realizadas para qual telefone? Uma vez informada a direção da emergência, qual será o procedimento?
Antecipar o que vai acontecer e repassar (ensaiar) os procedimentos é um modo de deixar pais e alunos menos ansiosos, evitando problemas. Recomendo o envio de uma "carta" endereçada aos pais onde se descreve o que a lei determina, as regras que a escola estabeleceu para implementar a lei e as consequências previstas em caso de descumprimento.
3. Identifique e configure os celulares
Os celulares vão se movimentar pela escola como nunca. Quem tem experiência em sala de aula já conseguiu se antecipar aos possíveis problemas que esse "vai e vem" vai gerar. Nos primeiros meses do ano letivo será aberta a temporada de celulares "desaparecidos".
Se eu tivesse atuando na escola ainda, usaria o primeiro dia de aula para levar o nome dos alunos impressos em pequenos papéis que possam identificar seus próprios aparelhos. Além disso, usaria um tempo da aula para ensinar a configurar coletivamente com a turma as opções de rastreamento do celular.
4. Consciência emocional. Nem tudo é sobre você
Seria muito otimismo esperar que um "regulador emocional" como o celular seja tirado subitamente de um jovem e esperar que ele aja "normalmente". Essas pessoas acabaram de vir de um treinamento intensivo no qual emoções incômodas são combatidas com "distrações" rolando feeds por aí ou jogando jogos online.
Sentimentos como medo, culpa, raiva, insegurança, ansiedade são parte da nossa experiência de estar vivos. Estes sentimentos, não raro, se manifestam em forma de conflitos, provocações, reações exageradas, tentativas de chamar atenção, etc. Saia de casa esperando isso e esteja preparado para contornar a situação dando suporte para que os alunos consigam processar isso da melhor forma.
Seu objetivo, grosso modo, é fazê-los se sentir seguros, não-ansiosos e capazes de focar em algo além de si mesmos em situações monótonas, convivendo com o tédio.
5. Consciência emocional. Algumas coisas são sobre você
Você já percebeu como uma mesma turma se comporta diferente com diferentes professores, certo? Não é curioso perceber que a mesma turma responde à presença de diferentes professores de diferentes formas?
O fato é que seus alunos respondem à sua energia e ao seu estado mental como professor. Faz uns bons anos que eu recomendo aos meus alunos assistir o seriado "O encantador de cães". Toda a abordagem do Cesar Millan tem por objetivo que o dono do cachorro apresente uma energia "calma e assertiva" que o habilite a ser reconhecido como o "líder da matilha".
Recomendo fortemente observar as dicas do César Millan e efetivamente praticar em sala de aula. Ser capaz de apresentar uma energia calma e assertiva pode te poupar de muitos conflitos desnecessários.
6. Evite "plateias"
Mesmo com todos estes cuidados, conflitos acontecerão. É sabido pelas pesquisas empíricas que bons professores tendem a elogiar em público e chamar a atenção no privado.
Eu tinha como hábito dizer ao aluno "me espera ali no corredor um pouquinho que eu já vou ali conversar contigo" e deixava ele esperando, pelo menos um minuto, pra que desse tempo dele processar o que aconteceu. Então, saía para conversar com o aluno em particular.
Se o aluno seguir o que foi combinado ou melhorar significativamente até o fim da aula, não deixe de procurá-lo antes de sair de sala e elogiar a melhora, ressaltando o impacto positivo para toda a turma e reconhecendo seu esforço.
7. Democracia tem limites
Professores com dificuldade de dizer "não" ou que se sentem melhor adotando a democracia como princípio norteador podem se sentir propensos a lidar com a proibição de celulares abrindo "rodas de conversa" ou dinâmicas de "negociação" de regras e processos.
Montar uma "assembleia" onde os alunos possam inclusive decidir pela revogação da lei naquela escola não é uma opção. A legislação segue vigente e qualquer movimento de "desobediência civil" pode mandar mensagens claras para os alunos sobre como se relacionar com regras e combinações.
Caso perceba uma insistência excessiva em negociar o uso de celulares na escola, recomendo ignorar e dar sequência às atividades da aula.
8. E quando o professor decidir usar os celulares em aula?
A proibição do celular não é completa. O uso para fins estritamente pedagógicos ou didáticos é permitido, conforme orientação dos profissionais de educação. Mesmo assim, alguns cuidados são úteis:
Não entregue o celular na mão deles antes de estar seguro de que eles entenderam o que é preciso fazer. Se possível, estabeleça etapas de realização da tarefa. Durante o uso do celular, melhor não passar o tempo todo sentado à sua mesa. Caminhar pela sala cobrindo igualmente os diferentes pontos da sala pode ajudar os alunos a retomar a atenção.
Não perca de vista que você está construindo não uma aula tranquila, mas um ano letivo tranquilo. Os primeiros dias de aula do ano são aqueles em que as suas mensagens serão ouvidas com mais atenção, aproveite esse período para definir o tom do que você quer que seja o trabalho ao longo do ano.
Espero de coração ter ajudado e desejo um ano letivo muito bom e uma tranquila implementação da nova lei.