Música

Como vivi na Alemanha tocando na rua e "matando o tigre"

Era 2009 e, mais uma vez, o fim do ano estava se aproximando. Quem é músico e/ou professor de Música em Porto Alegre sabe que quando chega dezembro a cidade vai se esvaziando. Um monte de gente arranja um jeito de ir pra praia, os bares ficam mais vazios, os alunos avisam que vão ficar um tempo fora, as casas de espetáculos marcam menos shows.

Eu tinha passado no concurso para professor da rede municipal de Porto Alegre e passei os primeiros meses de 2009 achando que tava com a vida ganha. Só um tempo depois foram me avisar que não tinham previsão pra chamar.

Então, eu fiz o que qualquer pessoa sensata e bem planejada faria: vendi tudo o que tinha e comprei uma passagem pra Alemanha pra tocar nas ruas da Europa enquanto não me chamavam no concurso(!)

A ideia era sair por aí com minha mochila, meu cavaquinho e meu violão tocando na rua até juntar o suficiente pra comer, dormir e ir pra outro lugar pra repetir o ciclo. Meus grandes amigos e baita músicos, o clarinetista e compositor Gabriel Fischer e o violonista e compositor Cristiano Fischer, me fizeram cair na real de que inverno na Alemanha não é aquela friaquinha do Rio Grande do Sul.

No fim, consegui um quartinho em uma grande casa que tinha sido de um conde da cidade. Ali foi meu espaço nesses 8 meses de Alemanha. Lá, eu fiz um pouco de tudo: toquei em igrejas, bares, exposições de arte — e até estudei composição no Conservatório da cidade.

Um músico brasileiro tocando na rua na Alemanha

No Brasil, a gente tem a tendência a ver quem toca na rua com um certo desprezo e até confunde com mendicância. Na Europa, está longe de ser um trabalho super glamouroso, mas não carrega tanta carga negativa quanto aqui.

A primeira dica que eu usei sempre foi a de, antes de começar a tocar, colocar no seu chapéu uma nota que seja mais ou menos aquilo que você está esperando em contribuições. A lógica é que quem quer contribuir dá uma olhadinha no que já tem no chapéu antes de dar sua contribuição e se baseia nela pra escolher quanto dar.

Mas o lance é que você pode botar quanta grana quiser no chapéu. Se você não fizer uma apresentação interessante, não adianta nada. A rua tem sua própria dinâmica e o que dá certo na sala de concerto não, necessariamente, vai dar certo na rua.

Pra quem toca na rua há tempos, "não se vender" ou "não trair a sua arte" não é orgulho nenhum se você passa horas tocando pra ninguém. Orgulho é "formar rodinha" e manter ela por um bom tempo. E isso é uma arte muito particular que se aprende no dia a dia das ruas.

Um músico brasileiro matando o tigre com latinos

Matar o tigre é uma expressão que aprendi na Alemanha por conta de ter conhecido muitos músicos da América Latina. De forma bem simples, matar o tigre significa entrar em um restaurante ou bar (já combinado com o dono ou dona), tocar umas 4 músicas e "passar o sombrero" (passar o chapéu pedindo contribuições para os músicos).

Se a grana for boa, se toca mais uma ou duas. Se não, pega o equipamento e vai pra outro restaurante ou bar. Em uma noite, fazíamos som em sete lugares e depois nos reuníamos pra contar (e repartir) a grana e tomar uma cerveja ou um vinho em outro bar.

As matadas de tigre formaram a maior parte da grana que pagou minhas contas na Alemanha. Meus amigos Marcos (da Argentina, no violão) e Jose (do México, no bongô) me ajudaram me chamando pra matadas de tigre, às vezes, em situações que eles nem estavam precisando, só pra me ajudar — uma coisa que eu nunca vou esquecer.

Oito meses depois, o concurso para professor em Porto Alegre me chamou e eu voltei pro Brasil, mas os amigos que fiz e tudo o que aprendi ficarão comigo pra sempre.

Eu, que me considerava um músico razoavelmente experiente, me dispus a ganhar a vida tocando na rua com certo ar arrogante de quem acha que seria a mesma coisa que um palco, só que na mesma altura do público. O que eu aprendi é que tocar na rua ou matar o tigre representa pra mim o grande desafio de tentar mostrar pro público que há algo interessante pra se ver e ouvir mesmo sem haver palco ou holofotes sugerindo que você merece atenção.

Poucas experiências foram tão desafiadoras em meus mais de quinze anos de músico profissional e eu nunca mais passei indiferente por uma rua onde músicos e/ou musicistas se apresentavam ao vivo.