Reflexão

"Não entra na loucura deles" — #AprendiEnsinando

Era meu primeiro ano como professor de Arte (ensinando Música) na rede municipal de Porto Alegre. Dezenas de turmas dos anos iniciais do ensino fundamental (crianças entre 6 e 10 anos) sob minha responsabilidade, mas praticamente não se ouvia músicas nas minhas aulas porque, na prática, eu passava o dia "apagando fogo".

"Apagar fogo" é uma expressão comum que designa o ato de alguém num cargo de liderança buscar soluções para problemas relativamente pequenos e não diretamente ligados aos objetivos de trabalho que aparecem rapidamente e que, se não administrados, podem escalar para algo mais danoso.

E não me entenda mal: as crianças adoravam fazer música e, pelo menos a maioria, gostava de mim. Eles não estavam sabotando a aula. Elas não estavam conseguindo organizar a si mesmos pra executar a tarefa que tínhamos à frente e, só depois eu vim a entender, eu não as estava ajudando a se organizar.

Pra te ajudar a visualizar o problema, deixa eu te dar um exemplo: entre as cenas mais comuns em minha sala de aula estava a de eu agachado colocando duas crianças para conversar:

– Por que tu bateu no Pedro?
– Ele falou que a minha mãe é gorda.
– Tu falou isso mesmo, Pedro?
– Falei. Mas é que o João ficou me provocando dizendo que eu sou chato e que ninguém gosta de mim.

E no exato momento em que pedia para voltarem aos seus lugares, outras duas brigas semelhantes a essas aconteciam em sala. Novas brigas criadas enquanto eu estava encontrando soluções para a primeira.

Um dia, estava eu e meus alunos no parquinho da escola aguardando o sinal bater. Não demorou pra aparecer uma daquelas brigas. Chamei os dois envolvidos e fiz toda aquela conversa por uns dois minutos. Uma colega professora com dezenas de anos de experiência observou em silêncio.

Um minuto depois, apareceu uma aluna dessa mesma professora se queixando de uma outra briga. Assim que a criança foi terminando de relatar, a professora se antecipou: "Não foi nada. Tá tudo bem. Volta lá pra brincar", se projetando para frente e empurrando levemente a criança de volta para o parquinho.

A criança pareceu meio surpresa num primeiro momento, mas logo estava brincando com os colegas novamente como se nada tivesse acontecido. Ao sentar novamente no banco, a professora virou pra mim e disse:

"Não entra na loucura deles."

Essa frase nunca saiu da minha cabeça. O que aquela experiente professora me comunicou é difícil de comunicar em palavras, mas a essência é:

Não é porque há alguém lhe cobrando responsabilidade pela resolução de um conflito que, de fato, esta responsabilidade é da liderança. Nem é porque alguém chega com olho arregalado e respiração ofegante dizendo que há uma questão urgente que, de fato, há urgência naquilo.

E, quando assumimos a responsabilidade de manter um ambiente com dezenas de pessoas em regime de "conflito zero", isso passa duas mensagens bem claras para os liderados:

1) Você, liderado, não precisa buscar aprimorar sua prática de resolução de conflitos. Traga o conflito pra eu resolver e poupe seu tempo, gastando o tempo do líder e do grupo.

2) O líder gasta grande parte do tempo resolvendo conflitos como esse, logo, é assim que se ganha atenção dele.

As duas mensagens são ruins para o trabalho em grupo. Sobrecarrega o líder, desincentiva que cada membro desenvolva uma postura de responsabilidade e desvia o foco dos resultados esperados.

É fundamental buscar compreender que mensagens estão sendo passadas para aqueles que compartilham aquele espaço e aquele grupo. Bons líderes definem uma história comum ao grupo que explica (através de palavras e ações) qual o propósito e o tipo de energia para buscar aquilo que é almejado.

Então, quando perceber que há um movimento para reforçar histórias diferentes da acordada, cuidado: Não entra na loucura deles!